Brasileiras são cobaias em tratamentos
Elas pagaram para testar experimentos controversos
Quando eu falo em melhorar, tem muita gente que olha com uma cara de ‘Coitada, iludida’, sabe?”, conta Daniela Bortman, estudante de medicina.
“Eu acredito que eu volto a andar, sim. E eu acredito que eu vou sair dessa cadeira de rodas”, diz Camila Magalhães, estudante de ciências sociais.
Camila e Daniela são duas jovens que têm em comum uma firme determinação: recuperar os movimentos do corpo. Daniela ficou tetraplégica em 2006, num acidente de carro em Taubaté, interior de São Paulo - história que o fantástico contou três semanas atrás.
Camila foi vítima de bala perdida no Rio de Janeiro há dez anos.
“Minha vida mudou completamente. Meus objetivos, minha realidade foi completamente alterada”, diz Camila.
As duas estudantes aceitaram o risco de se submeter a um tratamento ainda não testado pela medicina convencional em seres humanos e condenado pelos cientistas. Elas receberam um implante de células-tronco no exterior. Camila, em Portugal; Daniela, na China.
“Células-tronco são células que têm o potencial de formar diferentes tecidos, de recuperar tecidos que estão lesados. Então para doenças neuromusculares, para pessoas com parkinson ou diabetes vai ser o futuro da medicina regenerativa”, explica Mayana Zatz, geneticista da USP.
O repórter Pedro Bassan acompanhou a temporada de Daniela na China. Entre jardins chineses cuidadosamente desenhados está a clínica do Doutor Huang, o destino da longa jornada de Daniela. Mais de 1,3 mil pessoas de vários países já foram ao local em busca de tratamento. E o mundo continua olhando para cá com uma mistura de dúvida e esperança.
Desafiando as críticas dos cientistas, o Dr. Huang vai aplicar em Daniela os métodos que defende. Ele cultiva células do sistema olfativo, retiradas do nariz de fetos abortados aos 4 meses de gestação. Na china, o aborto é legalizado.
Huang implanta as células na medula de pacientes paraplégicos ou tetraplégicos. Segundo o médico chinês, essas células têm o poder de regenerar áreas lesionadas da coluna.
No Brasil, a geneticista Mayana Zatz, da USP, faz críticas radicais ao experimento.
“Não se recomenda o tratamento do Doutor Huang. Já houve casos de pacientes que tiveram meningite, que tiveram pneumonias, que tiveram infecções. Ninguém sabe o que ele está injetando”, alerta Mayana.
Depois de quatro horas de cirurgia, a maca trazendo Daniela surge no corredor. O Doutor Huang diz que as melhoras podem aparecer já no primeiro dia depois da operação. Na manhã seguinte, Daniela nota um movimento diferente no punho.
“Ele fez os exames do braço agora e eu tenho esse movimento de punho que eu não tinha antes. Apenas 26 horas depois da cirurgia já apareceu a primeira melhora grande. A primeira de muitas, se Deus quiser”, comemora Daniela.
Daniela e o pai chegaram ao Brasil na terça-feira passada. Onze dias depois da cirurgia do Doutor Huang, a vida voltou ao normal. A estudante de medicina fez até prova na faculdade. Mas houve alguma outra melhora?
“Houve. Voltei a transpirar. Foi uma coisa que desregulou. Depois do acidente, não suava mais. Tenho sensações nas pernas e nos braços que eu não tinha antes”, garante a jovem.
O pai de Daniela, neurocirurgião, conta que ficou surpreso com os avanços, mas está cauteloso.
“A gente não pode encarar a clínica do Doutor Huang como uma tenda dos milagres”, diz ele.
Mayana Zatz não acredita em uma evolução tão rápida. Em testes com animais, os resultados levam meses para aparecer.
“Na realidade são injeções de ânimo. Ela está com muito mais otimismo e isso faz uma diferença impressionante na recuperação das pessoas. Muitas das coisas que ela achava que não podia fazer, na realidade, ela consegue fazer”, defende Mayana.
Outros três brasileiros fizeram tratamento com o Dr. Huang. A paraplégica Kelly á consegue andar com a ajuda de próteses modernas. Os médicos, porém, ainda não sabem dizer se a melhoria se deve ao implante.
Tão polêmico quanto o colega chinês, o médico que operou Camila há dois anos, em Portugal, também usa células-tronco do nariz. Mas o material é retirado do próprio paciente, e não de fetos.
“A Camila está no grupo dos melhores doentes em termos de recuperação”, elogia o neurocirurgião Carlos Lima.
“Eu melhorei muito a sensibilidade, o equilíbrio do tronco, já estou com movimentos que eu não tinha nas pernas”, afirma Camila.
“A Camila acho que vai muito bem”, concorda Carlos.
Em imagens feitas num centro de reabilitação na Itália, Camila arrisca os primeiros passos com a ajuda de aparelhos. Mas não se sabe o quanto dessa recuperação pode ser atribuída ao implante de células-tronco ou ao trabalho de fisioterapia.
As duas estudantes apostaram alto. Daniela gastou R$ 40 mil. Camila, R$ 93 mil por uma cirurgia de resultado incerto.
“Não se pode cobrar por experiências terapêuticas. Isso fere todos os princípios éticos. Uma vez que você injeta células-tronco, você não sabe o que vai acontecer no corpo”, alerta Mayana.
Existe até mesmo o risco de que as células se transformem em tumores. Resultados seguros ainda devem demorar alguns anos para aparecer.
“Talvez três, cinco, dez anos. Mas é muito importante deixar claro que a gente vai chegar lá. Existem inúmeros cientistas que têm a mesma pressa que os pacientes, mas que estão preocupados em não arriscar, em não fazer nenhum tratamento que possa pôr em risco a vida dos pacientes”, resume a geneticista.
“O que importa para mim é sair dessa. O que tiver que fazer para isso eu vou fazer”, garante Daniela.
“Sair da cadeira de rodas, acredito sim. Nem que seja andar numa muleta, pra andar com algum andador”, contenta-se Camila.
“Talvez eu esteja me iludindo, mas é desse jeito que eu consigo viver, só desse jeito”, confessa Daniela.
Fonte: Fantástico
Link da reportagem: http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL768221-15605,00.html
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3 respostas para “ Brasileiras são cobaias em tratamentos ”
9 de Outubro de 2008 @ 00:05
O foda é pedir dinheiro pros outros pra fazer esses tratamentos doidos. Essa graninha poderia ser muito melhor aplicada comprando umas cadeirinhas pra pessoas que perambulam de skate ou se arrastanto por aí… :-(
13 de Outubro de 2008 @ 15:12
Fico realmente, triste de ler algo como o comentario da pessoa acima, sabe amigo e porque vc, não tem este problema na familia fique com Deus….
16 de Outubro de 2008 @ 13:29
Caro colega, nunca se sabe o dia de amanhã..
Se fosse voce que levasse um tiro de bala perdida, não pensaria assim.
A coisa é séria, não se trata de skate..