Perfil - Marilyn Hamilton

Marilyn Hamilton, americana paraplégica, que transformou-se em uma das mais importantes empreendedoras dos EUA
Esta americana paraplégica, que transformou-se em uma das mais importantes empreendedoras dos EUA, revolucionando o mundo das cadeiras de rodas de alta tecnologia e performance, esteve presente na REATECH 2008 trazendo seus conhecimentos a nós brasileiros e também para divulgar sua parceria com um importante fabricante de cadeiras de rodas nacional…
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Quem esteve na Reatech 2008 e viu a qualidade e a sofisticação das cadeiras de rodas expostas na feira, tanto importadas quanto de produção nacional, mal podia imaginar que uma das pessoas responsáveis por iniciar o processo de modernização desta indústria em todo o planeta estava presente no evento, como expositora e palestrante. Trata-se de Marilyn Hamilton, uma norte americana de 58 anos, que conseguiu transformar o trauma da paraplegia numa idéia que a transformou em uma das mais importantes empreendedoras dos Estados Unidos em sua especialidade, a de fabricar cadeiras de rodas.
Marilyn foi a responsável por revolucionar a vida das pessoas com deficiência através da empresa Quickie, a primeira fábrica do mundo a produzir cadeiras de rodas de alta tecnologia e performance em larga escala. E fez muito mais pela inclusão das pessoas com deficiência e a toda sociedade, através da fundação de entidades como a WOW - Winner on Wheels (vencedores em cadeiras de rodas), dedicada a realizar ações afirmativas para crianças e adolescentes com deficiência física.
Em sua saga de superação de desafios e de luta pela melhoria contínua em sua vida pessoal, profissional e coletiva, Marilyn saiu de uma vida comum como professora secundarista no interior dos EUA para a posição de para-atleta premiada (foi campeã de Tênis em Cadeira de Rodas e medalha de prata nas paraolimpíadas de inverno na Áustria em 1984 em Sky sentado, e vice-campeã mundial na modalidade em 1982). Além disso, tornou-se uma das maiores executivas do segmento em que, com certeza, ela pode ser considerada um marco divisor, uma referência de “antes” e “depois”.
Presente no Brasil durante a Reatech 2008 para apresentar a palestra: “Desafie seus limites”, e mostrar seu empreendimento de consultora de negócios e conferencista motivacional, Marilyn concedeu uma entrevista exclusiva à Revista Nacional de Reabilitação (Reação), na qual falou muito sobre sua via, seus desafios e sua concepções de vida. Acompanhem:
REVISTA REAÇÃO - Conte-nos um pouco de sua vida antes de do acidente que a deixou paraplégica.
Marilyn Hamilton – Nasci em 1949 numa pequena cidade da Califórnia, chamada Reedley, e fui criada em Dinuba, onde conclui meus estudos básicos. Era uma garota típica do interior, cheia de sonhos e de expectativas sobre a vida. Fiz minha graduação universitária em economia doméstica, juntamente com o meu primeiro marido, Rick Hamilton, na Cal Poly (California Polytechnic State University), na cidade de San Luis Obispo. Após a formatura, passamos um período de nossas vidas lecionando em escolas de ensino médio (High School) na Austrália, a convite do governo australiano, e aprendi muito. Mais do que trabalhar em outro país, a minha experiência foi de assumir riscos, enfrentar e não fugir dos desafios. Eu não era uma pessoa que se interessasse em seguir o padrão e fazer tudo igual aos outros. Eram tempos duros, mas foram de grande proveito. Após este período na Austrália, voltamos para os EUA e fomos morar perto de Fresno, também na Califórnia, onde meu marido foi administrar uma fazenda da família que produzia frutas, que exportávamos para o mundo inteiro. Foi nesta época que sofri o acidente.
RR - Fale sobre seu acidente e o processo de reabilitação.
MH – Eu adorava esportes, tinha uma vida muito ativa, e na década de 70, nos Estados Unidos, eu era uma das únicas mulheres do país a voar de Asa Delta, e achava o vôo uma coisa fantástica. Voei por 5 anos, era uma piloto experiente e adorava subir nas montanhas e saltar. Mas, num dia desses, antes de saltar, não conectei a trava de segurança que me segurava na asa, e estando em frente do abismo, na rampa de lançamento, corri, saltei, mas escorreguei e a asa virou. Como era previsível, não consegui estabilizar a asa ou acionar meu pára-quedas, não pude evitar a montanha, caí de uma altura de 18 metros e quebrei a coluna. A partir daí minhas esperanças foram embora, meus sonhos encobertos e reconheci que a vida não ia ser o que eu imaginava. Então comecei minha reabilitação e fiquei no hospital apenas três semanas. Eu era muito impaciente, queria seguir adiante com minha vida e o fato dos médicos dizerem que eu teria que ficar internada por 6 meses era inaceitável para mim. Eu precisava seguir adiante e disse a eles: “me ensinem o que eu tenho que fazer que faço em casa” (risos). Coloquei alguns equipamentos de fisioterapia na sala da minha casa e comecei a reconfigurar minha vida. Comecei a andar em pequenos trechos e realmente acreditei que iria voltar a fazê-lo. Lia artigos sobre o tema e passei 5 anos tentando muito duramente voltar a andar, porque da minha maneira, não estava aceitando minha deficiência… eu gerenciava minha deficiência e gerenciava o que queria que acontecesse.
RR - Houve alguma pessoa que lhe apoiou ou serviu de inspiração na época?
MH – Minha inspiração nesta época foi o Tio Bill (tetraplégico, tio do primeiro marido de Marilyn). Ele trabalhava com o cultivo de uvas da família e era um grande negociante de frutas. Como meu marido cuidava da fazenda, decidi trabalhar com o Tio Bill enquanto fazia a reabilitação, e nessa época não queria mais atuar com educação. Tio Bill me ajudou muito. Ele me fez entender que a gente pode sonhar com qualquer coisa e que nós podemos fazer as coisas acontecerem. “Levante para os seus sonhos, pois você pode fazer o que quiser”, dizia ele para mim. Tio Bill ficou tetraplégico cedo e não desistiu de sua vida, foi para Loyola Law School e para a UCLA - University of California, Los Angeles, e se tornou advogado. Ele foi minha grande inspiração e tive sorte de tê-lo ao meu lado nesta época.
RR - Como foi que se envolveu na produção de cadeiras de rodas?
MH – Então, como eu ia dizendo, estava trabalhando como comerciantes de frutas com Tio Bill e fazendo as minhas coisas, e ele sempre me dizendo: “vá atrás dos seus sonhos seja ativa de novo!”. Foi então que resolvi retomar minhas atividades ao ar livre e em Fresno/CA, perto da cidade onde eu trabalhava, comecei a jogar tênis em cadeiras de rodas. Me realizei como pessoa, mas vi que o “dinossauro”, a cadeira de rodas de quase 30 Kg que eu usava, não iria funcionar. Cheguei a usar 3 cadeiras de rodas no primeiro ano e paguei caro por elas. As cadeiras que eu usava não eram exatamente a minha idéia de uma cadeiras de rodas. E foi aí que pensei: minha asa delta era como um brinquedo! Ela tinha cores e dispositivos de retirada rápida, você tirava as amarras e as asas de forma rápida, e elas tinham mais tecnologia que aquilo que eles me davam como sendo as minhas pernas. Eu não compreendia aquilo! E o que ocorreu foi que, fiz a seguinte pergunta: porque não transferir as tecnologias usadas na fabricação de asas deltas para as cadeiras de rodas? Então falei sobre essa idéia ao meu marido e ele achou que eu estava brincando, pois seriam necessários muitos recursos para concretizar esta idéia. Daí surgiu a idéia que gerou a Motion Designs, menos de um ano depois do meu acidente, em 1979. Foi esta pequena empresa que projetou e manufaturou as hoje famosas no mundo todo, cadeiras Quickie.
RR - Como esta pequena empresa começou a produzir?
MH – Eu pensava, desejava, sonhava com uma cadeira de rodas melhor e isto me motivou muito, pois estava reconfigurando minha vida em cima de novos objetivos. Eu chamei dois amigos, Jim e Don, e os convidei para trabalhar comigo neste projeto, e eles se tornaram meus parceiros. Na época, estavam fabricando asa deltas e o que nós fizemos foi adicionar às cadeiras de rodas uma tecnologia que envolvesse: peso leve, alta performance e ajustabilidade total, ao contrário dos “dinossauros” que já vinham há anos sendo feitos de uma forma padronizada (e sem graça). Nós fizemos um produto ajustado às necessidades e desejos dos consumidores, falamos com os médicos e com os negociantes para ver o que eles queriam e alinhamos as necessidades deles com os desejos do mercado. Mas nós fomos mais longe, e colocamos cores alegres, pois naquela época quase que só havia um horroroso aço inox, e programamos nossa produção para o uso de equipamentos CNC - Computer Numeric Control, no qual cada cadeira e peça, seja ela qual for, seria intercambiável com qualquer outra do mesmo modelo. Isso nos ajudou muito na época, pois os concorrentes faziam as cadeiras com processos industriais que não garantiam a mesma qualidade. Tivemos que fazer tudo diferente. Um novo modelo de cadeira, um novo modelo de fabricação e também um novo modelo de negócios, pois o mercado não estava preparado para a mudança. E conseguimos. O nome da marca veio de um amigo meu, que fabricava aviões de brinquedo, que ele chamava de Quickie (que traduzindo é rápidinho, ligeirinho), e eu gostei muito do nome, pois representava o que eu gostaria que a cadeira fosse: um produto alegre e divertido.
RR - Como a pequena Quickie se tornou um gigante na produção de cadeiras de rodas?
MH – A partir do trabalho inicial, houve um processo de crescimento estratégico, no qual tínhamos que ter cuidado com as vendas. Como todos estavam acostumados a outro tipo de produto, os vendedores tiveram que aprender a medir de forma diferente e atender de forma também diferente, e isso nos deu a responsabilidade de promovermos um crescimento controlado, pois não teríamos condições de atender muitos pedidos. Meu segundo marido, Robert Hamilton, que comercializa produtos na área, lembra que, na época, uma cadeira Quickie não parecia uma cadeira de rodas. Era uma coisa fora do normal, com suas cores, seu design, seus dispositivos. Nós pensamos nisso e como sabíamos que não conseguiríamos atender a todos se houvesse um grande volume de pedidos, planejamos nosso trabalho para vender a quem realmente entendesse os diferenciais do que estava comprando. No início foi duro, nós passamos por muitas dificuldades, e os sócios da empresa ficaram três anos trabalhando em outros empregos até poderem se dedicar integralmente à Quickie. O grande salto ocorreu quando lançamos nosso primeiro modelo dobrável, que ficou em segredo por muito tempo. Tínhamos U$ 500 mil de caixa, 300 cadeiras fabricadas e prontas para remessa, e participamos de dois diferentes eventos com médicos (Kansas City) e atletas (Hawaii). Logo que as lançamos, todos os engenheiros das fábricas concorrentes se focaram em copiar a cadeira, mas nós tínhamos um diferencial que eles levaram 6 meses para nos superar e foi aí que começamos a crescer de verdade. Em 1986 nossa empresa foi vendida a Sunrise Medicals e eu ocupei por 21 anos o cargo de vice-presidente de planejamento estratégico Global, época na qual a marca Quickie se consolidou no mercado de alta performance e qualidade superior.
*Marilyn hoje não atua mais como executiva da Sunrise e se dedica à sua empresa de consultoria em negócios.
RR - Além da questão profissional, como você encara os desafios da vida e como aplicou sua experiência pessoal na busca por metas profissionais?
MH – Eu acredito que o maior recurso, o alicerce de tudo, são os nossos valores, atitudes e como nós vemos e encaramos nossas vidas (principalmente quando diante das dificuldades). É muito importante, por isso, iniciar com o que eu considero o nosso maior alicerce: como encaramos a nós mesmos. Se quando eu sofri o acidente, acreditasse que eu era uma pobre garota que não poderia fazer nada, então teria sido uma pobre garota que não poderia mais fazer nada… Todos nós podemos realizar coisas maravilhosas. O tio Bill me ensinou isso, minha mãe e meu pai me ensinaram isso, meu marido hoje me diz isso… mas somos nós que temos que acreditar que somos capazes. E isso não acontece da noite para o dia, é um sistema de crenças. Em toda a minha vida busquei as coisas muito ativamente e sempre digo que, nós não podemos controlar nossas vidas, mas controlar nossas respostas a ela, e o mais importante é como fazemos isso. Se nós fazemos isso corretamente, se começamos a desejar o sucesso, construindo-o a cada dia, ficamos mais confiantes e desejamos fazer cada vez mais coisas, e isso é crítico, é um (grande) ponto de partida. Eu avalio a minha vida como uma tentativa de inspirar as pessoas, pois se não posso motivar você, pelo menos inspirar eu posso. Se ajudar você a se conhecer melhor e se, a partir daí você tiver um “click” (um despertar), você alcança a motivação pessoal para conquistar suas metas, seus sonhos e, com isso, vem toda uma corrente de relacionamentos que começam na família e passam por todas as pessoas pelo seu caminho. Ninguém, basicamente, pode fazer nada por você. Tudo depende de você mesmo. Na minha vida eu fui muito afortunada, tive um monte de oportunidades maravilhosas, mas antes eu era a mesma pessoa que sou hoje, estou apenas fazendo as coisas de forma diferente.
RR - Deixe uma mensagem para os leitores brasileiros?
MH – Foi estimulante ver muitas pessoas com diversos tipos de deficiência aqui na Reatech, correndo atrás de seus objetivos… eu amei a quantidade e qualidade de produtos e as cores, a alegria, e a tecnologia apresentadas. Gostaria de agradecer ao Paulo Fernandes, da Tok Leve, pela parceria que me deu a oportunidade de estar aqui no Brasil, e aos brasileiros pela boa acolhida. Penso que nós todos (PPDs), temos muitas histórias paralelas, um pouco diferentes nos detalhes, mas muito parecidas, quase as mesmas no sentido de lutarmos para superar nossos desafios. Termino esta entrevista com uma frase que é um dos meus lemas: “desafie seus limites. Se você não pode levantar da cadeira de rodas, levante para a vida !!!”
OLHO:
“Não limite seus desafios, desafie seus limites”
Marilyn Hamilton
Fonte: http://www.revistareacao.com/entrevista.php
Anômalografado por Tabs! ; )
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